Morte na Picada

May 23, 2008

A Guerra Colonial está na moda. Houve tempos em que só se falava dela de surdina. Hoje todo o cabo raso que serviu além mar tem história para contar. É assim que, para além dos livros de encomenda que enchem os tops das livrarias outros tantos romances de longas páginas jazem nas gavetas como projectos que não passaram disso.
Com Antunes Ferreira foi diferente. Tudo começou com uma crónica postada no seu recém cirado blog, A Treavessa do Ferreira, sobre sua partida para Angola, 40 anos antes, onde serviu dois dos cinco anos do serviço militar.

No Cais de Santos, mais 1784 homens fardados e um “formigueiro de famílias, namoradas, amigos despediam-se com muitas lágrimas à mistura”.

“Os amigos da tropa”, contou o autor ao DN “diziam que tinha muita leitura”. Daí foi um salto até pôr de lado o romance que estava a escrever e dedicar-se a recordar. Angola, Luanda e a mata. As brancas que ficaram para trás. E as pretas que se encontraram pelo caminho. Amigos que morreram no mato os outros que podiam ter morrido.

Foi escrevendo short stories, uma atrás da outra , umas ficcionadas outras reais e vividas – desafio é descobrir quais – e no final a possibilidade de publicar surigu naturalmente.

Morte na Picada retrata uma guerra sem sentido pelas histórias dos soldados e pela boca grosseira dos soldados. Uns que só queriam voltar para casa, outros só queriam ser livres. Acabavam todos à pancada, mais a medo que com raiva.

Numa história dois amigos de infância reconhecem-se apenas no momento em que disparam um contra o outro. A morte é surpresa e presença constante, o ponto final das biografias que se vão seguindo no livro. O sexo anda sempre na cabeça dos soldados.

A Morte na Picada não é mais do que a memória de uma guerra que “começou há quase meio século e já terminou há quase 30 anos, mas ainda hoje continua presente em todos nós”, como disse Joaquim Furtado, jornalista que apresentou o livro.

É narrativa brutal sobre homens que se matam e morrem sem razão. Como no desfecho do livro, quando carrasco e prisioneiro, repartem a refeição e são mortos por quem não soube sonhar com a reconciliação.

Morte na Picada – online shoping

Travessa do Ferreira – blog

Antunes Ferreira

Hugo Coelho

Jornalista

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