perdido
November 9th, 2010 § Leave a Comment
Ele ainda pôs a mão na maçaneta da porta, mas depois sem saber muito bem porquê sentiu uma insegurança tremenda, deu um passo atrás e parou diante do espelho. Viu o reflexo apertar o último botão do casaco, ajeitar o cachecol ao pescoço e enfiar as mãos nos bolsos. Depois, no fim, ficou a ver o sorriso. Aquele sujeito tinha um look surreal. Como se fosse um criminoso procurado que não tem medo de mostrar a cara, mas precisa de se esconder por dentro. Não se demorou a pensar sobre isso. Sacudiu a introspecção com um encolher de ombros. Depois abriu a porta e o céu apareceu cinzento escuro. Era domingo. O terceiro dia em Paris.
Em sentido contrário ao do vento, subiu a Rue des Gobelins e na Place d’Italie virou à esquerda. Andava sem pressa,. A rua era longa e terminava numa ponte sobre Sena. Parou entre a rive gauche e a rive droite a olhar para a Notre Dame de costas. Nunca a tinha visto assim. Achou que não tinha o direito de apanhar a Catedral desprevenida e sentiu-se envergonhado. Depois como se não aguentasse mais estar naquela posição incómoda ou como se soubesse que alguma coisa estava para acontecer pôs-se a andar depressa.
Meteu-se por umas ruas e foi ter à Bastille. Aí voltou a parar para pensar, mas em vez de um pensamento veio-lhe uma memória à cabeça. Tinha estado ali antes, pois reconhecia tudo muito bem naquele lugar. Um segundo depois viu um rapaz e uma rapariga de mão dada a passar ao seu lado. Sentiu-se completamente perdido. Depois perseguiu-os na esperança de que eles soubessem um caminho dali para fora.
Saiu da rotunda para uma rua de piso empedrado e estreita. Escolheu-a porque estava cheia de pessoas e porque os carros e as motas pareciam andar nela só nos bicos dos pés. Ao fundo havia uma esplanada com toldo vermelho escuro mas pálido com duas filas de mesas e cadeiras todas viradas para rua. Na fila de trás estava um velho de barbas a escrever. À esquerda três parisienses um pouco mais novas que ele com chávenas de café na mesa e cigarros na boca. Havia outros, mas ele só reparou nestes quatro.
Sentou-se num lugar ao lado delas, com uma mesa de intervalo, sozinho, para ouvir a conversa. Ainda não tinha ouvido nada quando a empregada apareceu à sua frente. Pediu um café. Depois, como se não fosse possível aguentar aquilo nem mais um segundo, começou a chover.
O volume do mundo aumentou naquele instante. A pingas faziam splash no toldo. As pessoas e os carros na rua começaram a andar mais depressa. O velho levantou os olhos do caderno interrogativo e as raparigas soltaram uma gargalhada. Então, chegou o café com uma bolachinha no pires e a conta noutro. Ele não abriu açúcar porque queria experimentar o sabor a amargo, mas mesmo assim mexeu-o com a colher.
As raparigas eram uma loira e duas morenas. Mas uma morena era gorda e a loira era demasiado loira, apesar de ter um rabo de cavalo. Por isso, ele pôs os olhos na morena que estava de costas para a rua e tinha uma franja ao lado e um sorriso bonito. Quanto à conversa que ouvia como um espião ou talvez, apenas, uma velha vizinha, começou pela universidade e foi dar a uns rapazes.
Na verdade, o que elas diziam interessava pouco ou mesmo nada. Ele encarregava-se de inventar uma história para a vida da morena da franja. Chamava-se Marie, estudava literatura na Sorbonne e trabalhava a part time numa editora de Montparnasse. Vivia num sótão numa colina do huitième arrondissement, na rive gauche, com um escritor pós-moderno.
Chegado aqui, ele tirou o maço do bolso interior do casaco, puxou um cigarro e acendeu-o.
O escritor pós-moderno também era parisiense. Gostava de andar sozinho na rua e era um pouco tímido, mas, apesar disso, tinha muitos amigos. Escrevia em casa, nos cafés ou pela rua. Quando ela não estava nas aulas, na biblioteca, no café com as amigas, ou a trabalhar na editora, passeavam os dois pelos jardins. À noite iam a uma esplanada na Place de Countrescrape, e depois voltavam para casa e faziam amor duas vezes. Sempre a mesma esplanada e sempre duas vezes. Ela vivia apaixonada.
O cigarro acabou no momento em que ele chegou a esta simples verdade. A chuva tinha abrandado também, mas a rua continuava barulhenta. Reparou que se tinha esquecido de beber o café. Estava frio. Depois viu a morena a sorrir só pelo canto do olho. Sentiu vontade de a olhar de frente e falar-lhe. Mas continuou a olhar para a rua.
Ficou assim uns minutos. A seguir, respirou fundo e com toda a determinação de um louco, virou-se para a loira que estava a olhar para o lado dele e perguntou: “Excusez moi. Je suis en vacances, pouvez-vous me dire oú est le Marais, le quartier?”
A loira respondeu que também elas as três não eram de Paris e depois, como se isso não bastasse, a morena da franja sorriu abriu a mala e tirou um mapa. Passou com o indicador no papel desdobrado e depois virou-se para ele e respondeu apontando para uma rua: ‘C’est ce quartier lá juste devant nous.”
Então, ele sentiu-se perdido, de novo. Agradeceu às parisienses. Deixou uma nota na mesa. Depois foi-se embora sem saber para onde.