Rawls, o arrogante
December 31st, 2010 § Leave a Comment
O meu problema com John Rawls é parecido com o que tenho com o Papa. Na minha condição – humana – nunca me senti capaz de resolver o mistério do Absoluto. Muito menos falar em seu nome para que outros, tão homens quanto eu, me dessem ouvidos. O Papa faz isso com Deus. Embora passe o tempo a tentar evitá-lo, John Rawls faz isso com a Justiça.
Rawls levou a vida a tentar actualizar os princípios de justiça de Kant e a livrar-se da sua justificação metafísica. Não discuto as conclusões de Rawls. Mais do que o fim, discordo do caminho escolhido.
Na tentativa de definir a Justiça a priori Rawls refugia-se na posição original. Este artifício teórico representa o estado de um individuo se encontra antes de vir ao mundo. Desconhecendo quais serão as suas aptidões naturais e posição social – o véu da ignorância -, o indíviduo está refém não só da razão mas também da razoabilidade. É assim que definirá os princípios da justiça imparcial.
Enquanto constrói todo este processo Rawls é inatacável. O problema é o passo seguinte. Quando o próprio se mete na pele do indíviduo na posição original e escreve na pedra os princípios de justiça.
Tornando uma longa história curta, não custa perceber que Rawls não consegue pôr-se na posição original, nem cobrir-se com o véu da ignorância, mais do que qualquer outro indivíduo que siga o imperativo categórico. Ele não se pode ver livre da sua circunstância – não pode ser como o Peter Pan que perdeu a sombra. Por isso as conclusões ficam sem fundamento.
A armadilha teórica em que Rawls se afunda é evitada por Habermas com a sua a ética discursiva. Ao contrário de Rawls o alemão resigna-se a procurar um processo que leva os indíviduos à definição da Justiça.
Habermas não descrê da razão humana, mas desconfia da sua capacidade e está consciente dos seus limites. Ele julga que a verdade só pode ser alcançada pela razão em confronto – ou seja pelo discurso. E o mesmo para a Justiça.
Tudo isto tem uma consequência: a justiça deixa de ser uma meta que cortamos, torna-se um ponto que perseguimos. Nós os homens modestos e reféns das suas circunstâncias.