auto_retrato
February 10th, 2011 § Leave a Comment
“Estás a olhar assim para mim. Não sabes, mas eu já fui poeta. Fazia versos com rimas e até alguns que não rimavam. As rimas não eram precisas para nada porque as metáforas faziam música. E, por isso, também cantava em plenos pulmões e vivia a vida a dançar com o corpo todo. Deves estar a pensar, como é que eu me tornei nisto, então? Eu respondo-te: a culpa é toda do amor.”
Dito isto, o de-lá calou-se uns minutos como se esperasse que o que tinha acabado de dizer pudesse fazer eco na cabeça do de-cá e este, sentado imediatamente à sua frente, com a mão a segurar o queixo, continuou a segui-lo com o olhar e a tirar-lhe as medidas, como se adivinhasse por onde ia continuar a história, mas soubesse, de antemão, que não podia perceber o fim.
“Eu achava que o amor, uma vez encontrado na rua, ia andar comigo para sempre, como uma pulseira da sorte. Mas houve um dia que se foi embora. Foi de repente e sem avisar. Acordei um dia, vi-me ao espelho e NADA. Talvez não repares mais eu escrevi em maiúsculas. NADA. Foi então que fiquei mudo.”
Chegado aqui, o de-cá franziu o sobrolho e depois pensou que o de-lá devia estar louco. Talvez por isso, e porque ele próprio não tinha nada que contar, se tenha decidido a esperar que o outro se deixasse de coisas e retomasse o devaneio.
Esperou e nem viu que, no relógio, o ponteiro dos segundos tinha arrastado o dos minutos e este, por sua vez, mexido com o contador dos dias e este, ainda, empurrado o número dos meses para diante.
Esperou calado e a olhar para o espelho.