pescadores figurantes
February 24th, 2011 § Leave a Comment
Alguém pintou uma mentira no alcatrão e fez uma rima a branco e preto neste bocado de mundo para onde eu fujo para me sentar a pensar com os pescadores pelo lado e as suas canas de pesca geometricamente plantadas. “Ninguém nunca pensou no que há para além do rio da minha aldeia”. Devia encher-me de coragem para me levantar um dia e escrever a cores uma estrofe de três versos, EU PENSEI, EU PENSO, EU PENSAREI, um metro adiante, mas sinto sempre um medo de que as minhas letras sejam engolidas pelo preto e que não haja testemunhas para falar por mim contra o alcatrão. Os pescadores, velhos, nunca ali estiveram realmente, passam os dias de costas para a morte à espera que qualquer coisa os apanhe de frente – pode ser um peixe ou uma bota e se for de noite um pirilampo mágico, tudo vale, é preciso é ter paciência e imaginação – e com os olhos fechados, a fazer uma sesta envergonhada e escondida atrás de uns óculos de sol dos anos setenta, esses sim, fazem o trabalho todo, passam uma vida virados para o mar e quando não, devolvem os sorrisos rasgados e fáceis das japonesinhas que passam. Quem esteja a ver este filme pode, legitimamente, pensar que está a ser intrujado, e reclamar que, afinal, tudo isto é uma fotografia gigante colada sobre o ecrã da televisão, que se mexe devagarinho, para cima e para baixo, como as ondas que chegam de longe, ecos do eco do motor de um cacilheiro, que seria a única coisa a quebrar esta imagem de gelo, não fosse o peixe que, parvo, mordeu o isco. Depois é como se alguém fizesse Play ou talvez mesmo Fast-Forward. O pescador acorda do torpor e começa com uma mão a enrolar a linha mais depressa, mais depressa, mais depressa, e o outro pescador ao lado, tomado pelo diabo da inveja, vira-se para ele e atira: você anda a esfregar o isco na pele. Eu sigo tudo com o olhar, primeiro o parvo que mordeu o isco, depois a mão que enrola a linha e finalmente a inveja do vizinho. Ainda não sei o que vai sair dali mas digo para mim mesmo, devias agarrar no peixe, na bota ou no pirilampo, atirar-te ao mar e nadar para longe, para além do rio e do mar, só para avisar a esse alguém poeta que é hora de acabar com as mentiras escritas no chão para uma cidade inteira ler.