contos

FOTOGRAFIA

A esplanada da Rue du Cardenal tinha uma mesa e duas cadeiras de ferro.
Ela estava sentada na da esquerda e quem a visse diria que estava sozinha em Paris.
‘Bonjour Madame’, ouviu-se o empregado que saiu de dentro do café para a rua e se meteu ao seu lado
‘Bonjour. Je voudrais un chocolat chaud’, pediu ela num francês muito bem cuidado.
‘Certainement, madame. Rien d’autre?’
‘Pour le moment…
O empregado, um senhor velho, virou costas, mas tinha acabado de passar a ombreira quando ela falou outra vez.
‘Excusez-moi…’
‘Avec du sucre, s’il vous plait’, disse tirando os óculos de sol.
‘Bien sûr’, respondeu ele, sorrindo, e voltando para dentro.
Então, ela posou os óculos na mesa e olhou para onde começava a rua e onde o sol se começava a pôr. Estava entre prédios um pouco velhos e não tão altos que não deixassem passar a luz em Setembro
Apostava que das janelas do último andar, que seria o sótão, se avistava o rio ou o jardim, conforme o lado para que estivesse virada. Era numa daquelas casas que gostava de viver. Por isso, sempre que vinha a Paris, procurava uma rua com aquela e ficava assim sentada a olhar.
‘Et voilá, un chocolat chaud’, ouvi-se o velho a dizer enquanto pousava a caneca a fumegar na mesa. ‘Et le sucre…’
‘Merci beaucoup’.
O velhou anuiu e voltou para dentro, mas chegado à ombreira, mesmo sem razão, virou-se outra vez, olhou para ela, para o seu rabo de cavalo e para o casaco preto justo e abotoado até ao pescoço, e disse com o sorriso que além de velho era um pouco triste
‘Pardonnez moi madame. Je voudrais vous dire que vous êtes três jolie’.
Ela fez um sorriso triste também e ficaram os dois assim parados durante uns segundos. Depois, o velho desapareceu e ela aqueceu as mãos na caneca e levou-a à boca e bebeu um pouco enquanto olhava de novo para onde a rua começava. Desta vez, porém, não dava atenção aos prédios, nem aos sótãos, nem sequer viu um gato estava deitado num parapeito a aproveitar os últimos raios de sol. Continuou a beber e a pensar nas palavras do velho sem se dar conta de nada à sua volta.
Depois suspirou e meteu a mão no fundo da mala e tirou de lá a carteira. Abriu-a e ficou a olhar lá para dentro. Com um dedo desenhou os contornos do que podia ser um rosto, ou apenas uns lábios sorrindo. Depois fechou os olhos para deixar de olhar e uma lágrima caiu-lhe da mão. Quando a sentiu, levantou-se da mesa e fugiu dali a correr.

EM NOVA IORQUE

Nova Iorque é o melhor lugar para se ficar à espera. Na cidade onde todos andam depressa eu estou parado a olhar. Um táxi amarelo aparece-me no canto do olho, faz uma curva devagar e vejo-o de lado antes de o ver de frente. Ouço-lhe o barulho de carro velho quando se aproxima e encosta do outro lado do passeio. Paro mais parado do que estava, a porta do lado de lá abre-se e uma mulher sai. Está de costas, o cabelo loiro a cair-lhe nos ombros mas depois vira-se e vejo-lhe o rosto quando ela fecha a porta. Suspiro e o meu ar transforma-se em fumo branco que desaparece devagar. Quando olho de novo já ela está de novo de costas, os saltos tac tac a andar para longe.
Enfio as mãos no fundo dos bolsos e encolho os ombros, dentro do casaco preto, desapertado, para aquecer. No Inverno, Nova Iorque é fria. Mas eu gosto de ficar ali à espera, a cara gelada, os olhos a ver o que passa com pressa. Dois carros passam por mim e deixam atrás deles a rua deserta e calada. Olho para o céu, não há estrelas, mas as luzes que nunca se apagam reflectem no azul escuro. Anoitece cedo e aqui isso sabe bem. Dá um ar de filme ao lugar e a mim faz-me sentir uma personagem dentro de um história daquelas curtas que fazem sentido para quem está lá dentro e só acontecem em Nova Iorque.
Na montra do café da esquina, um empregado, de costas, colete preto e camisa branca, arruma os copos altos de vinho, na bandeja, antes de rodar, mantendo o equilíbrio, e dar uns passos até á mesa da mulher morena ao pé da janela. Leio-lhe um excuse me sério nos lábios e ele deixa ficar os copos altos. A mulher morena olha-o nos olhos, agradece e deixa-o ir embora do pensamento à velocidade que ele anda para longe da mesa. Depois a mulher morena inclina a cabeça para o lado direito, sorri, e nos seus olhos aparece o homem à sua frente. Ele fala frases longas, ela responde umas palavras curtas, mas nunca tira o sorriso. Talvez se tenham conhecido há uma semana e este seja o primeiro encontro. Talvez sejam ex-namorados que voltaram a cruzar-se depois de decidirem ir cada um para seu lado. Em Nova Iorque tudo é possível. Ela sente-se bonita, levanta-se da cadeira, chega-se perto e dá-lhe um beijo de três segundos no canto do lábio.
Eu volto a expirar fumo branco e olho para a rua. Dou três passos para o lado e olho para o passeio cinzento onde vão os meus pés, sapatos pretos, envernizados, como o emprego. Levanto a cabeça e dou três passos para o outro lado. Paro olho para o café de novo e um táxi amarelo aparece-me ao canto do olho. Faz uma curva devagar e vejo-o de lado antes de o ver de frente. Ouço-lhe o barulho de carro velho quando se aproxima e encosta do outro lado do passeio. Eu paro mais parado do que estava. Abre-se uma porta, a do meu lado, que dá para a estrada. Uma mulher sai de lá de dentro e vejo-lhe a cara. És tu. Sorris, corres para mim abraças-me com força. Dás-me um beijo de que eu nem conto os segundos. A porta do carro ficou aberta, esquecida. O taxista vê-a pelo espelho e depois vê-te a beijar-me. Tens a perna direita no ar e ele desabafa para dentro do táxi amarelo: Nova Iorque é o melhor lugar para se ficar à espera.

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